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📖Título do original: Tout seul
🖊🎨Roteiro & Arte: Christophe Chabouté
📅Ano de lançamento do original: 2008
📚Editora: Vents D'Ouest
Coleção Intégra
⚖️Tradução & Créditos do Scan: Quadrinhos Inglórios
✍🏾Sinopse:
Ele mora aqui há 50 anos, nesta pedra, em seu vaso de granito. Barco imóvel que não o leva a lugar nenhum e jamais chegará a porto algum... E por que deixar este lugar quando o mundo além desta maldita linha do horizonte é tão assustador? Para onde fugir quando você não tem para onde ir? Como combater a solidão e evitar que este silêncio perpétuo se torne ensurdecedor?... Anos passados na sua rocha, tendo a sua imaginação como única companheira...
⚖️Créditos da Sinopse: Vents D'Ouest
Névoas Companheiras
No estado deste estatuto
de fracasso em fracasso,
remeto meu estudo
de destruição por tudo
ao arbítrio de meu
juízo falha.
Em meu redor,
os ossos falam,
falam em uma linguagem
compreendida pela
minha falta de planos,
falam em uma linguagem
comprometida com
meu ganho de feridas.
Reúno estas feridas sobre
a fria pedra da minha
sepultura viva,
que também dialoga
comigo nesta névoa
de moradia.
A linguagem é a de todo
cadáver que hoje nem
lembranças tem de si mesmo,
idioma de sombras
extintas há muito,
alfabeto de remendos
perdidos por muitos.
Muitos como eu engolfados
nas disciplinas de névoas
que não nos dizem
para onde estamos indo…
Estamos indo
para lugares piores?
Estamos indo
para prisões mais fortes?
Estamos indo
para fins menos nobres?
Ou estamos mesmo ficando
aqui nestes nevoeiros
onde morre O Tempo
e agoniza O Espaço
e é esquartejado O Mundo
pelo que modelamos
dentro deles?
Varro para longe a mentira
que consiste na estranha
estratégia de muitos que
se enganam dizendo que
o viver humano é
muito mais do que apenas
névoas.
Tudo é névoa
neste Cinzento Mundo.
Tudo é névoa
nesta Desgraça Contemporânea.
Tudo é névoa
nesta Era Das Humanas Trevas.
Tudo é névoa
neste Século Dos Vermes.
Eu,
pequeno verme que poetiza,
me aconselho entre os seios
da Deusa Solidão.
Ela É
Uma Senhora Das Névoas
Mais Sábias.
Porque Solidão,
Verdadeira Solidão,
não é uma doença,
não é uma opção,
não é uma revolta,
não é uma frescura
de insatisfeita gentinha
com toda a humana
sociedade de merda.
As névoas de uma solidão
que se tem desde o berço
são as melhores professoras
que se podem ter.
Como enevoado abismal coveiro
fadado a ser sempre enterrado,
sou desse Povo que desde o berço
é aluno dessas névoas.
Me sinto,
assim,
um dos mais
abençoados
da Terra,
tanto quanto
minhas Solitárias Irmãs
e meus Solitários Irmãos
nas Trevas.
Inominável Ser
OUVINDO
ETERNAMENTE
AS INFINITAS
LIÇÕES DAS NÉVOAS
DA VERDADEIRA
SOLIDÃO
Inomináveis Saudações a todas e todos vós, Seres Do Mundo!
Esta é a Resenha da primeira obra que li do grande Mestre francês Christophe Chabouté. Uma magnífica obra-prima com uma qualidade de sensibilíssima intensidade, o que faz jus aos renomados títulos conquistados pelo Quadrinhista que se encontra entre os maiores nomes europeus da atualidade na Nona Arte.
Obra que se concentra muito em contemplativos silêncios, merece ser lida como se a passagem dos eventos nela fizesse parte constante da nossa própria experiência de vida além da leitura. Apenas há 10% de diálogos, os quais não são redundantes e nem didáticos, como ocorre com alguns tipos de obras que precisam explicar-se sendo naturalmente mais contemplativas do que expositivas. Chabouté não comete o erro de se fazer como um narrador onisciente, ele faz com que cada desenho e expressão dos personagens, junto com suas poucas falas, passem as adequadas mensagens para quem segue a leitura. Claramente, ele faz como mais importante a essência da silenciosa narrativa acima da excessiva expressão de um roteiro nos balões de fala, recurso tradicional dos Quadrinhos em geral.
Se você em nada está acostumado a leituras assim, que exijam também o silêncio da nossa mente, melhor não arriscar-se lendo Totalmente Só. Julgo-a como um trabalho experimental tendo como cenários apenas uma pequena ilha onde se localiza o farol que acolhe o isolado morador dele, o mar e a embarcação que regularmente leva mantimentos para aquele. As razões para os dois tripulantes sem nome levarem os alimentos, tanto quanto a razão do isolamento do personagem principal, somente poderão ser informadas na leitura. Visto que não sou um entregador de Spoilers e estes ser um estilo de obra quadrinhística muito peculiar por causa das características que citei acima, não moldarei nesta Resenha tudo que há nela. Pois, explanar tudo seria o mesmo que entregar o todo do Roteiro em seu nada apressado desenvolvimento, constituindo uma falta de respeito da minha parte aos leitores que se interessarem na história.
Nela, o nome do Personagem Principal não é informado, apenas a apelido que recebeu, Sozinho. Tendo como companhia apenas um dicionário e um peixe em um pequeno aquário, ele usa da imaginação para conhecer as coisas que nunca viu. São divertidas e tristes, ao mesmo tempo, as passagens nas quais ele escolhe aleatoriamente uma palavra no dicionário e imagina como é no desconhecido mundo além do rochedo. Um momento em especial é de tal densidade e dor nessa rotina dele que me emocionou com bastante agudeza, específico toque dado por Chabouté para que a alma do solitário morador do farol do rochedo seja contemplada. Nunca chega a ser repetitiva a demonstração da rotina de alguém que, por toda uma existência, se moveu apenas no pequeníssimo isolado universo que se tornou a única coisa do mundo a ser-lhe íntima. As condições e as razões que compuseram a natureza do isolamento, como eu expressei acima, somente podem ser vistas na leitura. Somente pondero que é algo revoltante que demonstra dentro de uma obra de arte o quanto alguns Seres ditos como humanos racionais são a pior escória ignorante de todo o planeta.
Eu terei um dia a versão física de Totalmente Só, uma inquestionável relíquia dos Quadrinhos Contemporâneos nascida da genialidade de um Verdadeiro Mestre. Desenhos contidos, com sérias linhas dosando os momentos mais alegres aos mais tristes, sem distanciar-se da depressiva atmosfera de toda a condição do Solitário. O final me agradou por ter sido muito coerente com as correntes de narrativo desempenho da linguagem mais visual do que explanation e deixou o desejo de saber mais. Espero a continuidade da história, mas as 374 páginas dela fazem questão de informar que tudo o que se poderia saber sobre o homem do farol do rochedo foi o suficiente. Uma continuidade ou uma cronologia infinita vinda dela tornariam apenas comum e simplória a beleza do que se tem aqui. Uma beleza que deu a este Solitário Inominável Ser que eu sou, um crônico isolado, mais um motivo para amar os Quadrinhos.
Saudações Inomináveis a todas e todos vós, Seres Do Mundo!
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